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segunda-feira, 24 de agosto de 2009

A falácia da “vontade divina”

Este é um artigo sobre Igreja.

Comecei hoje a ler Cartas Entre Amigos e já quero citar dois parágrafos do Padre Fábio de Melo:

Escuto absurdos sobre Deus, quando pessoas movidas por boas intenções resolvem explicar as fatalidades do mundo. Frases simplórias e descomprometidas com a verdade não resolvem; ao contrário, agravam ainda mais o sofrimento, porque geram orfandade, descrença e abandono.

Justificam as tragédias humanas como “vontade divina”, retirando assim a responsabilidade humana dos acontecimentos, fruto das escolhas que fazemos. Respondem a tudo e a todos como se o desvelamento do mistério pudesse resolver as questões.

O trecho do livro serve apenas para embasar um desabafo que há muito tempo eu queria fazer, pois se trata de uma situação que muito me incomoda.

Jesus na cruz

Já faz alguns anos que estou decepcionada com esses absurdos sobre Deus dos quais o Padre Fábio fala. Como membro da Renovação Carismática Católica devo admitir que cada vez mais os ouvidos dos frequentadores dos grupos de oração são tratados como penicos por pregadores descomprometidos com a verdade que falam as “abobrinhas” que o padre elegantemente chamou de frases simplórias.

O movimento da Renovação Carismática Católica, na sua ânsia por quantidade, tem descuidado da qualidade e deixado que pessoas totalmente despreparadas, sem nenhuma formação teológica e realmente crentes de que “foram ungidas por Deus”, assumam o ministério da pregação. Como consequência óbvia o nível dos ensinamentos cai cada vez mais, aproximando vergonhosamente a Igreja Católica de algumas seitas com fins lucrativos que se autodenominam “evangélicas”.

Cruz

O pior é que esses irmãos, com suas “pregações” recheadas de abobrinhas – e que por isso mesmo fazem bastante sucesso - já estão nas coordenações diocesanas e até estaduais dos ministérios da Renovação Carismática Católica. Nas coordenações nacionais, graças a Deus, eu ainda não vi nenhum desses propagadores de absurdos, mas temo o pior.

Não podemos culpar apenas esses pregadores, porque ninguém pode oferecer o que não tem. Os culpados somos todos nós, católicos carismáticos. A causa é uma só: somos preguiçosos, egoístas e imediatistas. Estamos esquecendo de dar tempo ao tempo. Trocamos os pés pelas mãos.

Crucifixo Oramos pouco e temos agenda cheia, mas na verdade não fazemos nada, como quem planta na areia, desperdiçando o trabalho e as sementes. Servimos demais, evangelizamos de menos. Damos muitos testemunhos sobre o quanto nos tornamos maravilhosos desde que dissemos “sim” a vontade de Deus, mas nos esquecemos de dizer o quanto Deus é maravilhoso. Em nossas pregações, dizemos mais “eu” do que “Deus”, como se duas letras não coubessem mais em nossa fala.

Fugimos de nossas responsabilidades humanas, colocamos tudo na conta do Espírito Santo. Estudamos pouco e falamos absurdos sobre Deus. Tratamos Deus como se fosse um escravo, sempre disposto a satisfazer nossos caprichos vaidosos e egocêntricos. Nossa oração é cada vez mais supérfula e nossa ação quase inexistente.

Se alguém diz que precisamos estudar teologia dizemos “não preciso, a unção de Deus me basta”, como se Deus fosse obrigado a dar conta de nosso analfabetismo. Tratamos a bíblia como se fosse uma rifa em que lemos o versículo que foi “sorteado”.

Jesus carrega cruz

Trocamos as frases “foi culpa minha, estou arrependido” e “foi culpa sua, mas eu te perdoo” por “foi vontade de Deus”. Usamos Deus para camuflar nossa incompetência. Colocamos na cruz de Jesus o peso de nossa própria cruz, como se a d’Ele já não tivesse peso o suficiente.

Se não passamos no vestibular, foi vontade de Deus. Se engravidamos antes de casar, foi vontade de Deus. Se nos divorciamos, foi vontade de Deus. Se perdemos o emprego, foi vontade de Deus. Se nos tornamos obesos, foi vontade de Deus. Se adquirimos algum vício, foi vontade de Deus.

Pelo amor de Jesus! Se todas as merdas que aprontamos fossem vontade de Deus, Ele não seria Deus, seria um cafetão que leva goianas para “trabalhar” na Europa, um madeireiro que mata freiras no Pará, um traficante de armas e drogas no Rio de Janeiro, um senador nordestino, qualquer coisa desse nível… não um Deus.

Se nossas falas e atitudes são simplórias, a solução é simples, mas exige muito:

Amar como Jesus amou
Sonhar como Jesus sonhou
Pensar como Jesus pensou
Viver como Jesus viveu
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz

Trecho da música Amar Como Jesus Amou, Padre Zezinho

Usei a primeira pessoa do plural para parecer menos “dona da razão”, mas não sei se funcionou.

Apesar de ser a intenção inicial, o post ficou polêmico demais para ser publicado no blog do Ministério de Comunicação, então veio parar aqui no HTMHelen, que agora é meu único blog.

Me xinguem com moderação, já que os comentários são moderados. (Juro que o trocadilho foi desproposital, só percebi muito tempo depois de escrever!)

Paz e bem!

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