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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Sugestões para a próxima reforma ortográfica

Lápis e bloco de notas

Eu estava escrevendo um tutorial bondoso, com passo a passo, print screen, dicas… Mas não rolou! São 21h04 e tá uma temperatura dos infernos de verão com aquecimento global em Goiânia todo o Brasil, clima perfeito para um post indignado.

Mas não vou falar sobre o clima. Minha indignação de hoje é com relação ao Acordo Ortográfico de 1990. Não sei se foi porque levou tempo de mais para entrar em vigor, mas sei que foi serviço mal feito. Levaram o trema, tão útil e inofensivo!) e deixaram coisas tão chatas, inúteis e ultrapassadas como:

  1. Crase
  2. Porquês
  3. Hífen
  4. Próclise, ênclise e mesóclise

1. Crase (à)

Você conhece alguém que gosta de crase? Nem eu! Nós que trabalhamos com texto (redatores, advogados, revisores, professores de português…) até aprendemos a contragosto as regras necessárias para não passarmos fome, mas mesmo assim não concordamos com muitas delas, principalmente as exceções. Vez ou outra escorregamos naquilo que não nos parece muito lógico.

Quem é vestibulando ou concursando tem que aprender para passar. Para compensar, depois que passa faz questão de esquecer tudo, a não ser que trabalhe com isso todo dia.

Escreveu a carta à lápis.
O convite foi enviado à madrinha.
O jogador fez um gol à Pele.
Ela foi para a quermesse à cavalo.

Crase é #armadilhadesatanas. Como os países lusófonos são majoritariamente cristãos e democráticos, deveríamos todos manter distância disso. Que tal? Então minha primeira sugestão para a próxima reforma é:

A crase foi abolida!

Não havendo mais crase a existência da preposição seria percebida pelo contexto da expressão. Nas frases em que pudesse existir ambiguidade a preposição a poderia ser substituída por outra preposição ou por expressão equivalente.

Escreveu a carta com lápis.
O convite foi enviado para a madrinha.
O jogador fez um gol ao modo de Pele.
Ela foi para a quermesse em cavalo.

2. Porquês

Por que temos quatro porquês? Por quê? Vai saber… Quase ninguém aprende a usá-los antes de morer porque é porquê demais para um idioma só. Se você sabe quais são os quatro porquês e quando usar cada um deles, considere-se um lusófono privilegiado.

Por que você não atualizou o blog?
— Eu não atualizei o blog porque estava trabalhando muito.
— Mas vi que você tinha tempo para jogar FarmVille. Por quê?
— Eu estava viciada naquilo! Esse é o verdadeiro porquê.

Para facilitar para todos nós, minha segunda sugestão para a próxima reforma ortográfica é:

Três porquês foram abolidos!

Maravilha, não?! Assim teríamos apenas um porquê que serviria tanto para pergunta como para resposta. Ele poderia ser usado na frase como pronome como ou como substantivo. Lindo!

Porquê você não atualizou o blog?
— Eu não atualizei o blog porquê estava trabalhando muito.
— Mas vi que você tinha tempo para jogar FarmVille. Porquê?
— Eu estava viciada naquilo! Esse é o verdadeiro porquê.

Fala sério?! Seria ou não seria muito mais simples assim? Eu sei que você achou minha ideia fantástica, nem precisa agradecer. </ego-inchado>

3. Hífen

Outra coisa que deixa todos nós indignados é o hífen. Quem é que gosta das regras desse sujeito? Quem? Ninguém, é claro. O hífen separa, segrega, complica, desune… Como diria Cinderela, hífen é filho da putinha.

Então minha terceira sugestão para a próxima reforma ortográfica é:

O hífen foi abolido das palavras!

De acordo com a minha sugestão, as palavras atualmente grafadas com hífen teriam duas opções:

GRUDAR: Beija-flor e quero-quero, por exemplo, passariam a ser beijaflor e queroquero. Micro-ondas voltaria a ser microondas.

SEPARAR DE VEZ: Sempre que a pronúncia, a acentuação ou as regras ortográficas impedissem as palavras de grudarem, elas seriam separadas de vez: pré história, pé de meia, anti higiênico, etc.

No começo pareceria complicado, mas logo perceberíamos que usar apenas essas duas regras é muito mais simples do que (não) decorar as dezenas de regras que o hífen tem atualmente.

4. Próclise, ênclise e mesóclise

Não, não é de comer. Também não é de passar no cabelo. Não se envergonhe por não saber o que é isso. Na verdade a maioria dos professores de português no Brasil não decoraram as regras ainda, por isso não tentaram explicar para você.

Se nem o seu professor de português se arriscou, não sou eu quem vai perder tempo. Uma centena de pessoas sabe que isso existe, uma dúzia acha que sabe usar isso e meia dúzia até sabe usar, mas são mestres e doutores em linguística que dão aulas para outros mestres e doutores em linguística. É um conhecimento para a elite, uma espécie de código entre eles, saca?

Tá bom, chega de exagero, vou dizer logo o que é:

Eu me amo. (próclise)
Amo-te. (ênclise)
Amar-te-ei por toda a minha vida. (mesóclise)

Saber que existe você já sabe. Saber o que é você já sabe. E as regras para usar isso? Você as conhece ou escolhe o que tem som mais bonito?

Logo, minha quarta sugestão para a próxima reforma ortográfica é:

Próclise, ênclise e mesóclise estão liberadas!
Use o que achar mais bonito!

E você? Tem mais alguma sugestão para a próxima reforma ortográfica? Quem sabe a gente não compile todas as sugestões e mande para a ABL? Não custa tentar…

Até mais!

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