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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Muita opção, muita angústia

Vários caminhos

ATENÇÃO: Este é um texto longo, subjetivo, esmiuçado e sem recursos audiovisuais. Se não gosta de textos assim nem comece.

Nos últimos meses, em meus momentos de autorreflexão quase filosófica, tenho pensado muito em como o excesso de alternativas é proporcional à minha angústia. Sofri bastante aflição antes de decidir se eu deveria ou não partilhar esse assunto com vocês, até que optei pelo sim.

Segundo o nosso querido dicionário Aulete, o substantivo feminino angústia pode significar:

  1. Ansiedade intensa; AFLIÇÃO; AGONIA
  2. Sofrimento
  3. Psiq. Medo sem causa identificada
  4. Estreiteza, aperto.
    [F.: Do lat. angustia. Hom./Par.: angústia(s) (sf.[pl.]), angustia(s) (fl. de angustiar).]

No meu caso todas as definições acima são verdadeiras. O grande número de opções que tenho atualmente nos mais variados aspectos da vida está me tornando uma pessoa a cada dia segundo mais ansiosa. Para minha sorte não sou daquelas que contaminam todos ao redor com sua ansiedade ululante (perdão a quem é assim, mas acho que essas pessoas são terrivelmente maléficas ao bem-estar da sociedade). Porém, eu somatizo e recentemente passei a apresentar doenças, transtornos e infecções que, apesar de terem explicações físicas bastante plausíveis, foram desencadeadas pelo meu estado constante de tensão.

Um pouco de nostalgia

Quando eu era adolescente não tinha internet, não tinha TV a cabo, não tinha dinheiro para fazer cursos extra-curriculares, não tinha dinheiro para escolher um esporte ou frequentar boas academias, me achava muito feia (óculos + acne) e não sentia prazer em atividades com pessoas da minha idade.

Assim tudo era tão simples: eu lia praticamente tudo que chegava a minhas mãos, assistia na TV aberta somente o que realmente me interessava, estudava porque gostava, lia e escrevia bastante, praticava o esporte que era ofertado de graça no bairro, fazia caminhada no Parque Carmo Bernardes, aprendia violão mesmo sem levar jeito porque era o instrumento que meu pai tinha condições de comprar, tinha 1001 atividades diferentes na paróquia do meu bairro, escolhi minha profissão aos 13 anos de idade e não mudei mais de ideia.

Essa era a minha vidinha e eu realmente sentia muito prazer em tudo isso. Mas já na época eu percebia que, seguindo minhas inclinações, não era possível ser diferente. Não há nada que eu poderia ter feito de outra forma. Era aquilo ou simplesmente não era eu.

Tudo mudou

Ao entrar na faculdade (2006) eu também descobri a internet e foi a partir desse momento que a angústia aumentou. Aprendi muito no meu curso e ainda mais com as possibilidades da web. Descobri que eu tinha centenas de opções de caminhos a seguir sem deixar de ser eu, o que me deixou bastante desconcertada e confusa durante toda a graduação. Só para citar um exemplo, cogitei seriamente a possibilidade de deixar o jornalismo e me tornar programadora web por causa da minha habilidade com linguagens de hipertexto, mas com o tempo notei que isso não me descaracterizava como comunicadora social, apenas me tornava uma webjornalista melhor que a média.

Quando terminei a faculdade fui morar em Brasília onde meus primos “me contaminaram” com o desejo de ser servidora pública. Aí é que a angústia se multiplicou. Como eu não conseguia oportunidades de trabalho em minha área de formação, nos concursos públicos eu prestava para os mais variados cargos. Fazia cursinho já pensando em certames específicos, mas comprava Folha Dirigida só para ver as dezenas de concursos realizados toda semana em todo o Brasil, mesmo que não tivesse condições de prestar a maioria deles.

Em 2008 a angústia aumentou porque eu me tornei independente financeiramente e, depois de pagar todas as contas, tinha que escolher o que fazer com o pouco que sobrava do meu dinheiro. Decidi investir em uma pós-graduação e acredito ter feito muito bem, apesar de não ter conseguido terminar o TCC até hoje.

No final de 2009 comecei a trabalhar pra valer em comunicação social e em 2010 me tornei servidora pública. O prazer de ganhar dinheiro fazendo o que gosto me levou a decidir que não queria mais sair da minha área, o que aliviou um pouco a angústia profissional. Por outro lado, o aumento do meu poder aquisitivo aumentou a minha angústia financeira porque ficou ainda mais difícil decidir como gastar ou investir. Também passei a ter uma grande angústia sobre o uso do meu tempo graças aos novos hobbies que adquiri como, por exemplo, as dezenas de séries de TV que passei a acompanhar.

E agora?

Ao me tornar servidora pública estadual continuei me preparando para cargos melhores, já que tinha consciência da tendência de desvalorização do meu salário. Em 2011 não apareceram os concursos que eu esperava, mas continuei estudando para os poucos que apareciam, sem sucesso nos resultados. Até o último fim de semana de janeiro/2012 minha vida estava bem programada, mas neste exato momento estou totalmente em dúvida entre CINCO opções praticamente excludentes: o concurso dos meus sonhos, outro concurso, um mestrado, uma especialização ou um segundo emprego porque meu salário já não está dando para o gasto.

Apesar disso, não acredito que a falta de opções seja a solução para a angústia da decisão, em vários momentos da minha vida também senti aflição por não ter alternativa a situações muito ruins. Creio que o ideal é ter apenas algumas opções de escolha porque o excesso é mais prejudicial do que a falta total delas.

Refluxo, soluços, aftas, infecções, insônia, dores de cabeça, nó na garganta e um forte aperto no peito me levam a crer que o melhor é desistir de todas as oportunidades do momento e apenas tentar terminar meu TCC, o problema é a sensação de ter deixado as oportunidades passarem, ou será que não?

Aguardem cenas dos próximos capítulos.

Leia mais sobre o tema em:

Imagem: Vida com Qualidade

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