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domingo, 2 de setembro de 2012

É óbvio que blogueiro não é jornalista

Mesa de um jornalista na era pré-digital

Comecei a blogar em 2002, mesmo ano em que entrei na faculdade de jornalismo. Amo minhas duas atividades, mas odeio quando tentam colocar tudo em um saco só. Essa comparação só existe ainda porque alguns “cerumanos” têm preguiça de descobrir o que é um blogueiro; outros sabem, mas não querem aceitar o que descobriram.

► Erro de interpretação dos fatos

Dentre outras coisas, blogar é escrever o que pensa, defender aquilo em que acredita, ensinar o que sabe, compartilhar suas próprias paixões. Não é preciso nem ter terminado a faculdade ainda para saber que tudo isso só pode fazer parte de gêneros como o opinativo e literário, exceções do jornalismo.

E não é preciso sequer ter entrado na faculdade para saber que qualquer um pode: escrever o que pensa, defender aquilo em que acredita, ensinar o que sabe, compartilhar suas próprias paixões. Não são atribuições próprias do jornalista. Tudo isso é liberdade de expressão, direito constitucional pertencente a todos os brasileiros:

É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença.

Constituição Federal - Art. 5º, inciso IX

Importante para quem nem estudou direito ainda: o artigo 5º de nossa Constituição, que diz respeito aos direitos e garantias individuais, faz parte das cláusulas pétreas, ou seja, nenhum direito previsto nele pode ser abolido com emenda constitucional. Para remover qualquer inciso do artigo 5º é preciso fazer outra constituição.

Sem dúvida, o jornalista é o profissional mais convidado a expressar sua opinião porque tem muita curiosidade; lê bastante; assiste muita coisa; tem domínio de texto; conhecimento de mundo (seja o lá que isso signifique); contato diário com pessoas dos mais diferentes estratos sociais; credibilidade junto ao público… Mas é bom deixar claro que, no momento em que opina, ele está exercendo um direito que pertence a todos, jornalistas ou não.

Não é preciso ser um gênio, portanto, para deduzir que blogar não é fazer jornalismo. É liberdade de expressão. Nós estamos apenas colocando em prática o inciso IX do Art. 5º da Constituição Federal. Não tem nada a ver com esta ou aquela profissão.

Observação: Esse é um erro bastante cometido também por alguns defensores da não obrigatoriedade do diploma. Até existem bons argumentos para defender isso, mas comparar exercício profissional do jornalismo e liberdade de expressão com certeza não é um deles.

► Dicas do Capitão Óbvio

2 + 2 = 4

1. O blogueiro é livre para definir o que vai ter no blog dele: tutoriais, crônicas, opiniões, poesias, quadrinhos, música, vídeos… e até mesmo jornalismo, se ele quiser.

2. Poucos jornalistas mantém blogs jornalísticos.

3. Blog apenas informativo não é blog jornalístico. A informação seca - sem contexto, causa, consequência, versões, contraditório… - é apenas a matéria-prima do jornalismo, não chega a ser jornalismo ainda.

4. Blog opinativo em que o autor só dá espaço para sua própria opinião: não é jornalismo.

5. Blog de notícias em que o autor não entrevista as fontes que presenciaram o fato: não é jornalismo.

6. Existem, sim, blogs que são verdadeiramente jornalísticos, mas é uma porcentagem tão pequena na blogosfera que ninguém tem desculpa para confundir as coisas.

► Exercícios de raciocínio lógico

Criança pensando

Depois de tudo que escrevi acima, se alguém ainda suspeita que blogueiro é jornalista, pode ser que o raciocínio esteja enferrujado por falta de prática, então vamos treinar.

:: Exercício 1

Existe jornalista que escreve livro.

  • Quem escreve livro é jornalista?
  • Todo jornalista escreve livro?
  • Jornalista trabalha com fatos, então todo livro escrito por jornalista é não-ficcional?
  • Todo mundo que escreve livro não-ficcional é jornalista?

Repita esse exercício trocando a palavra “livro” por “blog”.

:: Exercício 2

Alguns advogados têm blogs de direito.

  • Isso significa que todo advogado é blogueiro?
  • Isso significa que todo blogueiro é advogado?
  • Se Nayron é advogado e blogueiro, podemos dizer que Nayron é blogueiro só porque é advogado?
  • Podemos dizer que Nayron é advogado só porque é blogueiro?
  • Já que Nayron é blogueiro e advogado, podemos dizer que blogueiro é uma subdivisão dentro da profissão de advogado?
  • Já que Nayron é blogueiro e advogado, podemos dizer que advogado é uma subdivisão dentro da atividade de blogueiro?
  • Para se tornar advogado basta criar um blog de direito?

Repita esse exercício trocando advogado/direito por médico/medicina, publicitário/publicidade, matemático/matemática, filósofo/filosofia, poeta/poesia, atleta/esporte e, por último, jornalista/jornalismo.

► O blogueiro é um comunicador social, só que mais livre

Pássaro olhando para o céu

Blogueiro não é jornalista, não é publicitário, não é relações públicas, não é webdesigner, não é fotógrafo, não é produtor audiovisual, não é apenas escritor… mas reúne características de praticamente todos esses profissionais.

Blogar é uma atividade cada vez mais presente nas mais diversas áreas da informação, do conhecimento e das artes; uma possibilidade real de comunicar em massa com pouco dinheiro; uma profissão para muitos; uma paixão levada a sério por tantos outros. O número de blogs diminuiu? Claro que sim! Era uma novidade sedutora e as pessoas tinham mesmo que experimentar. Muita gente que tinha internet e gostava de escrever, blogou. Quem se identificou, ficou.

Não adianta tentar nos “enfiar” em qualquer categoria, amadora ou profissional, que já existia antes dos blogs. Somos outra “coisa”. E uma “coisa” livre. Podemos escrever, falar, mostrar, atuar, desenhar, pintar, seguir as regras da língua, inventar um outro idioma,  contar, inventar, interagir, ignorar, dar notícia, fazer história, poetizar, ensinar, questionar…

Cada blogueiro que se descobre na atividade acaba reinventando o sentido do termo. E nessa deliciosa brincadeira aqui estamos, quase quinze anos depois.

Até mais!

Imagens: poesiaimpulsiva, nextilker, sosministerioinfantil e liberdade-so-por-hoje

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