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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Com carteira de estudante paga meia

Tenho muitos amigos corruptos. Engenheiros, advogados, policiais, jornalistas… Eles não querem pagar inteira no teatro, no show, no cinema. Terminaram a graduação ou a pós faz tempo. Mas ainda têm carteira de estudante. Só que falsa.

♦ Bom senso

Para começo de conversa, não vejo motivo para todo estudante ter direito a pagar meia.

Pense em um médico bem sucedido que já ganha seus R$ 30.000 por mês. Ele resolve fazer um MBA em Gestão Hospitalar para tentar uma promoção e passar a ganhar ainda mais. Só porque esse médico voltou a estudar ele tem o direito de pagar meia? Razoabilidade zero.

Acredito ser justa a meia entrada obrigatória para estudantes menores de 25 anos, idosos que não precisam declarar imposto de renda e participantes de programas de inclusão como, por exemplo, Bolsa Família, ProUni, Renda-Cidadã e Bolsa Universitária.

E é claro que os organizadores de eventos continuariam tendo liberdade para negociar descontos e permutas com quem bem entendessem. Aliás, teriam até maior liberdade se não precisassem oferecer descontos sempre acima de 50%.

♦ Legislação

A medida (ex-)provisória nº 2.208 de 17/08/2001 autoriza praticamente qualquer um a fabricar carteiras de estudante, mas as leis que garantem o benefício são estaduais. Aqui em Goiás, por exemplo, é a lei nº 12.355 de 05/05/1994.

No Paraná, a lei nº 13.964 de 20/12/2002 garante meia entrada para doadores regulares dos hemocentros. As pessoas dão o sangue para pagar meia. Acho justo.

Já vi alguns projetos federais tentando moralizar o uso da carteira de estudante, como o PL 874/2011, mas não está tramitando mais.

É preciso regulamentar a emissão do documento, a validade dele e também a forma de fiscalizar. Não sei como funciona em outras cidades, mas aqui em Goiânia qualquer papel com foto, impressão colorida e plastificação é aceito como carteirinha de estudante. Dá para fazer em casa. Quem tem, paga meia. E quem ainda não aderiu à falsificação é chamado de otário.

♦ O barato que sai caro

E todo mundo percebe que, por causa das carteirinhas falsas, os preços dos eventos são muito mais altos. Uma peça de teatro que poderia ser R$ 60 chega aqui por R$ 120. Os organizadores sabem que a maioria vai pagar meia, então dobram o preço. Os otários honestos acabam pagando o dobro do que a peça vale.

Mas muitos dos que têm a carteirinha falsa também têm filhos, sobrinhos, enteados e afilhados que realmente estudam. Só que esses pagam o mesmo valor dos falsificadores: a falsa meia, quando na verdade poderiam pagar 1/4 da falsa inteira.

O imediatismo, associado à vontade de se dar bem a qualquer custo, leva as pessoas a praticarem essa falsa economia. É corrupção de quem não sabe fazer conta. Pagam menos para si, mas estão pagando mais caro para seus dependentes estudantes. Matemática básica:

Com corrupçãoPai com carteirinha falsaMãe com carteirinha falsaFilho estudanteTotal
Inteira: R$ 120. Meia: R$ 60.606060180
Sem corrupçãoPaiMãeFilho estudanteTotal
Inteira: R$ 60. Meia: R$ 30.606030150

É claro que estou especulando quanto aos valores exatamente dobrados. Mas pode ter certeza de que quem define o preço do evento já estima a bilheteria considerando a meia-entrada “universal”. No fim das contas você, que tem carteira falsa, só está enganando a si mesmo.

Essa história me confunde um pouco. Fico sem saber quem realmente é otário. Acho que todo mundo. Os otários-corruptos são os que escolhem ser otários ao usar carteira falsa. Os otários-honestos são os estudantes e os que pagam a inteira superfaturada.

Quando todo mundo é otário, mas ser otário-corrupto parece ser mais interessante, é porque passou da hora do Estado intervir com legislação pertinente.

Até mais!

Imagem: Lei de La Atracción Positiva

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