sexta-feira, 26 de julho de 2019

Aplicativos de meditação são uma boa ideia?

por Sangito Deva

A famosa frase de Steve Jobs “there's an app for that” (há um aplicativo pra isso) não poderia ser mais profética do que é hoje em dia. O mercado de aplicativos para celulares cresce e a variedade se multiplica. Estimativas dizem que, até 2023, os gastos na App Store e na Google Play Store deve chegar a 156 bilhões de dólares, um crescimento de 120% comparado ao montante gasto em 2018.

E nessa onda de variedade, atendendo a cada microdemanda que o ser humano seja capaz de inventar, uma moda chama a atenção: são os aplicativos de meditação, que procuram acalmar nossa mente, torná-la mais relaxada e produtiva, trazendo técnicas que supostamente foram testadas e devem produzir o efeito necessário em nossas cabeças já superestimuladas.

Aplicativos como Medite.se e Meditopia, por exemplo, estão disponíveis para as duas plataformas mais usadas e possuem centenas de milhares de downloads. Mas será que seu conteúdo é realmente meditativo? Leva o usuário a uma expansão de consciência e um contato diferenciado com a própria mente?

Afinal, o que é meditação?

Existem diversas escolas sobre o assunto. Várias linhas filosóficas e religiosas vão tentar trazer a sua versão, com peculiaridades. Algumas linhas budistas, por exemplo, vão deixar claro que o estado de meditação traz um vazio mental, desliga os pensamentos e, quando isso acontece, estamos meditando. Outras, como no caso do Tantra, abordam a meditação como uma experiência corporal, repleta de informações sensoriais, que colocam todo o corpo em um estado de presença, conectado com o aqui-agora. Naturalmente os pensamentos ficam mais tranquilos, mas não necessariamente desaparecem por completo.

Independentemente de qual seja a escola, meditar é um estado de consciência que está além da mera atenção ou da concentração. É um estágio mais profundo no qual o observador e o objeto observado têm suas fronteiras misturadas, se transformam em uma coisa só. Meditar é uma experiência riquíssima, que se manifesta cheia de nuances específicas para cada meditador. Mas, no mundo agitado da internet, isso também fica homogeneizado e cria novas fórmulas. Uma delas é a chamada meditação guiada.

O fenômeno da “meditação guiada”

Um termo que se tornou muito popular, inclusive nas buscas do grande Google, é “meditação guiada”. Basicamente, uma musiquinha relaxante de fundo com uma voz doce que induz a pessoa a algum tipo de visualização que, consequentemente, traz um relaxamento.

Uma experiência que, definitivamente, trabalha a orientação da nossa atenção - algo também feito pelas meditações clássicas - ajudando a gente a repousar nossa atenção em algo específico, sem que ela se movimente muito, produzindo também um tipo de relaxamento corporal. É como ouvir uma anedota ou uma história agradável. Porém, as meditações guiadas, embora trabalhem aspectos similares, nunca conseguirão atingir a profundidade das meditações tradicionais, simplesmente por manterem um alerta mental bem específico, uma necessidade de atenção ao que está sendo dito ou tocado. Esse detalhe simples vai manter a nossa mente presa a alguns padrões já conhecidos e não permite que muito seja explorado no processo.

Então, qual é a eficácia dos apps de meditação?

Longe de mim dizer que os aplicativos não funcionam ou produzem experiências falsas. Não é essa a questão. Eles são extremamente eficazes para ensinar alguns preceitos básicos que servirão de base para a experiência meditativa, como manter a atenção focada em algo por um tempo.

Mas meditar é muito mais do que isso. Existem diversas formas de trabalhar a consciência. Ela pode estar virada pra dentro, pra fora, focada num ponto, aberta e receptiva. É possível incluir todo o corpo nesse processo, trazendo movimentos, sensações, percepções e os sentidos todos para a experiência. E cada pessoa vai ter mais familiaridade com determinado tipo de técnica, em determinado ponto da vida. Reduzir a experiência meditativa às meditações guiadas por áudio pode ser uma simplificação exagerada, principalmente quando não informamos nada disso ao consumidor final.

Em poucas palavras, os aplicativos são úteis e podem sim oferecer experiências novas para o meditador iniciante ou inexperiente. Embora sejam mais capazes de relaxar a mente do que propriamente nos fazer meditar, eles ajudam as pessoas a contemplar o caminho meditativo e a começar um refinamento, uma preparação para mergulhar nesse processo de autoconhecimento que só a meditação é capaz de proporcionar. Desde que, é claro, a gente não caia nas armadilhas das redes sociais, a piração de mostrar pro mundo o quanto meditamos, mais do que realmente mergulharmos dentro de nós mesmos.

Quem escreve?

Artigo escrito e enviado por Sangito Deva, terapeuta holístico que trabalha diariamente com técnicas de meditação em seus processos de cura. Atua e coordena, em Natal (RN), um espaço de terapia tântrica chamado Casa Samadhi.

Referências:

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